Publicado originalmente em 10 de agosto de 2026. Atualizado em 19 de agosto de 2026, com o calendário oficial de reabertura.

O que aconteceu

O Paso Internacional Los Libertadores, que integra o Sistema Cristo Redentor e liga Mendoza, na Argentina, à região chilena de Valparaíso, foi reaberto na terça-feira, 18 de agosto de 2026, depois de 34 dias fechado. É o fechamento mais longo já registrado no complexo, segundo as autoridades chilenas, superando com folga o recorde anterior, de 26 dias, em 2023.

A reabertura é gradual e tem calendário definido. Nesta primeira fase, o corredor opera exclusivamente para caminhões de carga, das 8h às 20h no horário do Chile, o que corresponde às 9h às 21h no horário da Argentina. De 18 a 20 de agosto, o trânsito é permitido apenas no sentido da Argentina para o Chile, em fluxo unidirecional até Guardia Vieja. De 21 a 22 de agosto, o sentido se inverte, apenas do Chile para a Argentina, com fluxo unidirecional até Uspallata.

Ônibus, veículos particulares e turismo de montanha seguem restritos, sem data definida para liberação. A prioridade nos primeiros dias é dos veículos já documentados na zona de estacionamento do ACI Uspallata.

Por que

O inverno andino sempre impõe fechamentos preventivos ao Cristo Redentor, em geral de horas ou de poucos dias. O que tornou 2026 diferente foi a sequência de frentes meteorológicas, que empilhou neve em volume raro, criou camada de gelo difícil de remover e trouxe ventos na faixa de 100 a 160 quilômetros por hora. Não se trata de excesso de cautela: em alta montanha, o risco não é apenas de atolamento, é de acidente grave em local onde o resgate é quase impossível.

A reabertura em fases também tem lógica própria. Com um mês de fila acumulada, liberar os dois sentidos ao mesmo tempo travaria o Caminho Internacional e transformaria a reabertura em novo congestionamento. Daí o fluxo unidirecional, daí a exclusão temporária de ônibus e veículos particulares e daí a prioridade para quem já está com a documentação processada no pátio.

Há ainda um fator estrutural que explica o tamanho do estrago. O corredor não tem substituto à altura. Paso Jama, Pino Hachado, Pehuenche e Cardenal Samoré ficam distantes, têm capacidade menor e operam com estruturas de controle próprias. Desviar por eles não é apenas rodar mais quilômetros; é reorganizar documentação, inspeção e janela de atendimento.

A dimensão do mercado

Mais de 70% da carga terrestre entre Chile e Argentina passa por esse corredor. Em 2025, o fluxo somou cerca de US$ 7,05 bilhões em mercadorias. Os números da Anagena, associação nacional de agentes de aduana do Chile, completam o retrato: 427.214 caminhões e mais de 6,5 milhões de toneladas no mesmo ano, média diária de aproximadamente 1.100 veículos e 18 mil toneladas.

O custo do episódio já tem estimativa. As perdas associadas ao fechamento são calculadas em cerca de US$ 200 milhões, somando permanência de veículos, custos logísticos e taxas de contêiner. Do lado argentino, mais de 1.550 caminhões aguardavam a liberação.

Vale registrar que as contagens de dias e de veículos variam conforme a fonte e o ponto de medição, o que é normal em evento desse tipo. Parte dos caminhões esteve retida em pátios afastados do complexo e não aparecia na fila visível. Para efeito de decisão operacional, a contagem importa menos do que o calendário de saída.

Para o Brasil, o corredor pesa nos dois sentidos. Na exportação, é por ali que segue boa parte da carga rodoviária destinada ao mercado chileno. Na importação, a via terrestre do fluxo chileno para o Brasil, pauta em que salmão, vinhos e frutas estão entre os principais itens.

O que o governo tem feito

O protocolo de reabertura foi construído pelas autoridades dos dois lados e segue uma lógica clara: esvaziar volume antes de normalizar o trânsito comum. O delegado presidencial da província de Los Andes, Ricardo Figueroa Ayala, afirmou que a normalização se dará de forma gradual e segura, sem prometer data para o retorno completo.

A prioridade declarada desde o fim de julho é o transporte pesado, com preferência para alimentos e produtos perecíveis. A restrição temporária a ônibus, veículos particulares e turismo de montanha é parte do mesmo desenho, para evitar congestionamento no Caminho Internacional durante a operação unidirecional.

Em paralelo, o Paso Pino Hachado voltou a permitir o trânsito de caminhões, ainda que representantes do setor descrevam o cenário geral como crítico.

Impacto para exportadores

O primeiro impacto é de janela. A reabertura não é uma porta aberta, é um calendário com sentido e horário. Quem tem carga do lado argentino precisa sair até 20 de agosto; quem tem carga do lado chileno começa em 21 de agosto. Perder a janela do seu sentido significa esperar o próximo ciclo, e não há garantia de qual será.

O segundo impacto é de prontidão documental, e ele foi confirmado pelo próprio protocolo. A prioridade nos primeiros dias é dos veículos já documentados no pátio do ACI Uspallata. Ou seja, a fila premia quem está pronto, não quem chegou primeiro. O caminhão que precisar de retificação no complexo perde a janela e volta para o fim da ordem.

O terceiro impacto é aduaneiro e costuma passar despercebido: o prazo do trânsito aduaneiro continua correndo enquanto o veículo está imobilizado. Força maior não se presume, ela se documenta e se formaliza antes do vencimento. Quem teve veículo parado por um mês precisa checar a situação de cada trânsito em curso.

O quarto impacto é de decisão comercial sobre a carga refrigerada. Depois de um mês parada, parte da mercadoria pode não fazer mais sentido no destino originalmente contratado. A escolha entre seguir, redirecionar ou renegociar precisa ser tomada antes da saída, e é prudente antecipar a possibilidade de nova inspeção sanitária na chegada, dado o tempo de exposição.

Há ainda uma camada regulatória que conversa diretamente com este episódio. A Portaria Coana 200/2026 alterou o regime simplificado de trânsito aduaneiro e passou a exigir monitoramento de veículos e de unidades de carga como condição do procedimento. Ou seja: no mesmo período em que o corredor esteve interrompido, a exigência para operar trânsito rodoviário simplificado ficou mais alta. Vale confirmar se o seu transportador e o seu rastreamento atendem aos requisitos antes de programar as próximas cargas.

Por fim, um recado de calendário para quem importa fruta. O que atravessa o corredor em agosto é fruta de câmara, como maçã, pera e kiwi. A temporada chilena de berries e cereja vai de novembro a março, e é a janela mais cara e mais perecível do ano. Este episódio é um aviso barato: o plano B para novembro precisa ser decidido agora, e não quando a primeira carga de cereja estiver parada na cordilheira.

Como a Ormac ajuda

O Grupo Ormac acompanha o status dos passos fronteiriços e apoia clientes na revisão documental antecipada, para que o veículo chegue ao complexo com DU-E, MIC/DTA e certificação sanitária em ordem, que é o que define a posição efetiva na fila.

Também apoiamos na formalização de prorrogação de prazo de trânsito com prova documental do fechamento, na análise de rota alternativa considerando o custo do desvio contra o custo de mais dias parado, e na revisão do roteiro fitossanitário de quem muda de ponto de ingresso.

Em episódios longos como este, a nossa contribuição principal é organizar a decisão: o que segue, o que muda de rota, o que precisa de documentação nova e o que exige conversa com o comprador. Se a sua empresa tem carga em rota, em pátio ou com embarque programado para o Chile ou para a Argentina, fale com a nossa equipe.

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